terça-feira, 3 de abril de 2018

Conto do dia: A Porta

 A Porta





Era uma noite de sábado. Madrugada, pra ser mais exato.




Dona Lourdes estava na sala com Seu Roney e Seu Gil, assistindo a uma maratona de sua série preferida na TV a cabo.

De repente, ela dá um pulo do sofá, Pepita pula de seu colo para cima de Seu Gil.

- Pelamor! Enjoei... enjoei de assistir a mesma série! - ela bate as mãos em seu roupão rosa, para tirar os pelos dos gatos - Estamos nessa desde 13h e já são quase meia-noite.

- Mas a senhora gosta da série, uai...

- Sim, Seu Roney. Na verdade adoro! Sou cinéfora né? Mas também gosto de banho e não fico a tarde toda no chuveiro.

- Eita, grosseria.. e é “cinéfila”...

- Exato! Mas, muito franca, Seu Gil: já tem tanto tempo que estamos assistindo a mesma série que já comecei a confundir a loura do terceiro episódio com a loira do sexto; o vilão da segunda com o policial da sexta... eita lelê! Minha cabeça tá um cofusêro só.

Rimos muito.

- E o pior é que estou sem sono... - ela fica batendo os dedos no climatizador ao lado do sofá - acho que vou é arrumar a cozinha!

- A essa hora?

- Ah, Seu Roney, se tem coisa que não sei fazer, é ir dormir com a cozinha bagunçada. Eu heim, vai que me dá um trem de madrugada, morro e fica tudo sujo? Aí o povo vai sair falando que sou porca ou preguiçosa... comigo não, Seu João!

- Quem é Seu João?

- Maneira de falar, Seu Gil.. Tô caçoando...

- Já achei que fosse algum namorado...

- Deus o livre! Quero saber de homem não... (ela faz o sinal da Cruz)

Mais risos.

- Seu Gil, o senhor me chama um Úbe, por favor?


- Mas a senhora não ia arrumar a cozinha? Vai aonde a essa hora?

- Vou láaaaaaaaaa na cozinha... láaaa tão tão distante... dá uma preguiiiiiça…

Mais risos.
A cozinha era realmente muito distante da sala onde estavam... chega a dar preguiça – como ela mesma disse -, de buscar um simples copo d'água.

Dona Lourdes sai andando a passos de cágado, arrastando o pé esquerdo no chão, de tão “animada” e falando “de si para consigo mesma”:

- Pelamor, Pepita, como que vou dormir sabendo que a cozinha está daquele tamanho? Ah, não.. não dou conta! Não sei dormir sem arrumar tudo. - Ela carregava Pepita no colo.

Chegando na cozinha, a gata pula de seu colo para a cadeira da mesa e Dona Lourdes resolve fechar a porta que dá para a sala de jantar pra evitar que o barulho da pia e da TV incomode. Na verdade ela gosta de arrumar cozinha cantando, mas àquela hora não teria como. Com a mão esquerda ela liga a TV com o controle remoto, enquanto fecha a porta com a mão direita e, despercebidamente, passa a chave na mesma.

Lava aqui, seca dali, conversa com o apresentador da TV, faz um carinho na Pepita. Serve um gole de suco de uva. Seca uns pratos… varre o chão (reclama porque o piso está velho e manchado) e, passados uns 40 minutos, tudo lavadinho e seco, ela resolve voltar para a sala.

- Vem, Pepita.. vem.. pshhh, pshh, pshh... vamos voltar pro sofá, cadiquê minhas pernas já estão cansadas.

Dona Lourdes pega Pepita no colo, que taca as unhas no ombro esquerdo de Dona Lourdes, para se equilibrar.

- Pelamor, Pepita Maria... tá precisando de uma paticure, minha filha.. muito franca.

Com a outra mão, equilibra uma xícara de café que acabara de passar, um pacote de salgadinhos e um de pipoca que fizera pros meninos. Tudo equilibrado, tenta abrir a porta que.. não abre.

- Jesus, Maria, José! A porta não abre! Que que houve aqui, senhor.

Dona Lourdes tenta jogar tudo pra cima do braço esquerdo, por cima de Pepita, que finca ainda mais as unhas em seu ombro. Dona Lourdes dá um gritinho abafado de dor. Depois de ajeitar tudo no braço, ela força a maçaneta, que gira sem abrir.

- Uai.. será tranquei? Nunca tranco...

Pois ela trancou.. e a chave quebrou lá dentro!



- Pelamor... misericórdia... tô roubada... como que vou abrir essa porta!

Ela coloca as coisas em cima da mesa, Pepita pula pro chão e volta para a cadeira. Chama pelos meninos, mas “grita baixo” que é pra não incomodar os vizinhos, pois já era uma da manhã. Procura por seu celular e descobre que deixou-o carregando no quarto.

- Agora a vaca foi pro brejo com a corda e tudo! Como que os meninos vão me ouvir, nessa lonjura que é a sala??

Ela anda até à pia, bate com os dedos no mármore. Dá meia volta e encosta na pedra. Coça a cabeça.. pensa.. pensa… anda até a porta, dá umas batidinhas na madeira (como se alguém fosse ouví-la...). Resolve gritar pelos meninos:

- Seu Gil!!! SEU GIIIIIEEEEELLLLL!!! Deve ter cochilado... pelamor… cochila À toa. SEU ROOOOONEYYYYYY !!! Esse vai me ouvir, não cochila. SEU ROOOOOOONEEEEYYYYYYYY!!!

Ninguém a ouve...

Pingo vem correndo, miando - gatos sempre percebem as coisas – e enfia a patinha por baixo da porta, na tentativa de ajudar.

- Pingo, fofinho.. vai lá chamar os meninos, vai, queridinho...

Pingo continua enfiando a pata por baixo da porta.. e começa a miar alto e grosso.

- Pingo, Pinguinho: vai lá chamar o papai, vai, gatinho... ANDA!!!

E num é que ele foi mesmo?

O gatão chega na sala miando alto e num tom diferente do normal.

- Que foi, Pingo?

- Ih, esse miado dele tá estranho, tem alguma coisa acontecendo, Roney.

Ele anda para no meio da sala, olha para Seu Gil e começa a miar com o olhar fixo.

- Com certeza tem algo acontecendo... pode apostar! Vamo lá, Pingão, o que tá acontecendo?

- Deve ser ração, pra variar... - comenta Roney - esse gato só faz pedir comida!

Os meninos se levantam e Pingo começa a andar em direção ao corredor, olhando pra trás e miando. Pingo continua seguindo pelo corredor, miando e olhando pra trás, como quem diz “anda, vem!”. Ele para diante da porta da cozinha e tenta enfiar a patinha por baixo dela. Seu Gil olha para Seu Roney e fala:

- É na cozinha! - entreolhamo-nos - DONA LOURDES!!!

Ouvimos sua voz abafada, falando pela greta da porta, fazendo “copinho com as mãos”:

- Socorro... tô presa aqui!

- Mas por que a senhora trancou a porta por dentro?

- Ah, Seu Roney, foi automático... nunca fecho essa porta, sequer a encosto. Mas, quando vou na casinha (banheiro), tranco.. aí me distraí e pimba… tranquei a danada...

- Joga a chave por baixo, pra ver se conseguimos abrir por fora – orienta Seu Gil.

Ela joga a chave no chão e Pingo puxa com a patinha.

- Obrigado, Pingão! Gatinho bom!

Pingo dá um miadinho para Gil.

- Não abre.. tá rodando em falso... quebrou o dentinho da chave – explica Roney.

- Jesus, Maria, José! Como que vou sair daqui agora? A janela da área e do quartinho tem grade e tela… poxa vida, nem tem como eu fazer igual no cinema, quando o bombeiro vem e monta aquele colchão inflável e aí eu me jogo daqui de cima...

- Chaveiro a essa hora, nem pensar...

- Como não, Seu Roney? Vou ter que dormir por aqui. Mas, onde? Pelo menos comida não vai faltar... HAHAHA

- A senhora ri? Vai dormir onde? Em cima da mesa?

- Pelamor… quem dorme na mesa é defunto… tou vivinha da silva! Tô aposentada mas não tô morta…

- Dona Lourdes, a senhora vai ter que fazer papel de McGuiver (quando fazemos referência a cinema ou TV, ela sempre fica mais calma, afinal, é “cinéfora”)!

- Já entendi, Seu Gil!

De repente, do outro lado, ouve-se o barulho da batedeira ligada...

- A senhora vai fazer bolo a essa hora, Dona Lourdes??

- Claro que não, Seu Gil bocó.. vou é abrir uma passagem na porta... o senhor falou pra eu ser McGuiver...

- Impossível, Dona Lourdes! A porta é de madeira maciça e a senhora ficaria até amanhã... a senhora vai é tirar os pinos das dobradiças. Vai lá no quartinho e pega o martelo e uma chave de fenda fina.

Roney não se aguenta de tanto rir.

- Dona Lourdes... ouça: largue essa batedeira na mesa e busque o que pedi. E pegue também um vidrinho de óleo de máquina que está ao lado da caixa de ferramentas.

Ela busca tudo.

- Pronto! E agora, Seu Gil?

- Pingue o óleo nas dobradiças. Agora, enfie a chave de fenda por baixo do pino e vá dando marteladas nela.

- AAAAIII......

- O que foi, Dona Lourdes? Martelou o dedo???

- Não, Seu Roney... é o chão!! Olha meu chão! Tá cheio de óleo! Pelamor!!

- Dona Lourdes.. foca na porta! - pede Seu Gil.

Ela começa a dar batidinhas cadenciadas no pino do meio, e vai contando junto:

- Um, dois, três e “pá”. Um, dois, três e “pá”. Um, dois, três e “pá” (no “pá”, ela dava uma batitidinha mais leve, pra descansar).

- Que isso, Dona Lourdes?

- Mania de quem já trabalhou com contas, Seu Gil.. tudo que faço repetitivo, conto. Não tem jeito. É automático já...

Pingo começa a miar do lado de fora, e Pepita responde do lado de dentro.

Roney olha para Gil com cara de quem não está dando conta da “cadência” das batidas e da miação dos gatos e fala, entre os dentes:

- Nesse ritmo ela vai sair daí amanhã... muito franca!

Gil retribui o olhar:

- Fala não.. aliás, já é “amanhã”. Olha a hora...

- Dona Lourdes, por favor: que tal trocar a cadência das batidas e botar um pouquinho mais de força?

- E estragar meu esmalte? De jeito nenhum.. como é que vou me encontrar com as meninas amanhã pra contar essa minha aventura, com as unhas todas estragadas? É ruim, heim! Arrasada mas linda!

E foi nessa cadência de “Um, dois, três e “pá””, que Dona Lourdes tirou os três pinos... depois de 40 minutos. Já era quase duas horas da madrugada.

- Pronto! Tirei os três! E agora?

Silêncio do outro lado.

- Hellooowww? Quéde vocês?

Ela resolve, então, olhar pelo buraco da fechadura.


Dona Lourdes demorou tanto com a cadência das batidas, que Seu Gil adormeceu sentado na esteira e Seu Roney recostado na mesa de jantar. Pingo estava aninhado no colo de Seu Gil. 

Dona Lourdes soca a porta e dá um berro:

- ACORDEM, SEUS BOCÓS!!! Eu tô aqui fazendo todo o trabalho braçal e vocês dormindo?

Pingo acorda num pulo só e dá um susto em Seu Gil, que acorda.

- A senhora demorou tanto, que apagamos...

- E agora, manés?

- Vamos empurrar a porta pra sua direção, pra soltar das dobradiças.

Gil começa a empurrar, mas a porta nem mexe...

- Estranho... não quer sair do lugar. Será que emperrou?

- É verdade. Também estou empurrando daqui, pra ajudar, e ela nem tchum... comenta Dona Lourdes.

- Dona Lourdes.... a senhora tá empurrando pro nosso lado?

- Claro, mané.. foi o que você disse pra fazer...

- Não, Dona Lourdes.. não é isso... NÓS é que vamos empurrar.

Ela faz seu tradicional bicão e concorda:

- Ahn… então tá… perae que vou arredar a mesa.

- Que mesa, Dona Lourdes? - pergunta Gil

- Ué… tive que arredar a mesa pra perto da porta pra trepar nela e tirar o pino do alto.

Roney olha pra Seu Gil e começa a rir de tanta força que Gil estava fazendo, à toa…

- Dona Lourdes Maria de Souza… além de empurrar no sentido contrário, a senhora colocou uma mesa atrás da porta??? TIRA LOGO ISSO DAÍ!!! PELAMOR!

A porta era de madeira maciça, pesava muito... mas, finalmente, tiraram a porta!

Mal abriram passagem, Dona Lourdes sai empurrando os dois, gritando:

- Saaaaaai, que tô louca pra fazer xixi!!! - e sai correndo desesperada corredor a fora.

Os meninos caem na risada, encostam a porta num canto e voltam pra sala.

Quando estão passando pelo corredor, Pingo está sentado em frente à porta do banheiro, avistam Dona Lourdes sentada no troninho... estava de porta aberta! (mas com o roupão por cima... é bom deixar claro)

- DONA LOURDES!!! O que é isso?? - perguntam, em uníssono.


- Eu heim… É ruim de eu fechar porta agora!!! Num sou louca! Lá pelo menos tinha comida… me passa o papel higiênico, por favor.  












5 comentários:

Xô papada!!

Um vídeo muito interessante pra ajudar a acabar com a papada !!