A
Porta
Era uma noite de
sábado. Madrugada, pra ser mais exato.
Dona Lourdes estava
na sala com Seu Roney e Seu Gil, assistindo a uma maratona de sua
série preferida na TV a cabo.
De repente, ela dá
um pulo do sofá, Pepita pula de seu colo para cima de Seu Gil.
- Pelamor! Enjoei...
enjoei de assistir a mesma série! - ela bate as mãos em seu roupão
rosa, para tirar os pelos dos gatos - Estamos nessa desde 13h e já
são quase meia-noite.
- Mas a senhora
gosta da série, uai...
- Sim, Seu Roney. Na
verdade adoro! Sou cinéfora né? Mas também gosto de banho e não
fico a tarde toda no chuveiro.
- Eita, grosseria..
e é “cinéfila”...
- Exato! Mas, muito
franca, Seu Gil: já tem tanto tempo que estamos assistindo a mesma
série que já comecei a confundir a loura do terceiro episódio com
a loira do sexto; o vilão da segunda com o policial da sexta... eita
lelê! Minha cabeça tá um cofusêro só.
Rimos muito.
- E o pior é que
estou sem sono... - ela fica batendo os dedos no climatizador ao lado
do sofá - acho que vou é arrumar a cozinha!
- A essa hora?
- Ah, Seu Roney, se
tem coisa que não sei fazer, é ir dormir com a cozinha bagunçada.
Eu heim, vai que me dá um trem de madrugada, morro e fica tudo sujo?
Aí o povo vai sair falando que sou porca ou preguiçosa... comigo
não, Seu João!
- Quem é Seu João?
- Maneira de falar,
Seu Gil.. Tô caçoando...
- Já achei que
fosse algum namorado...
- Deus o livre!
Quero saber de homem não... (ela faz o sinal da Cruz)
Mais risos.
- Seu Gil, o senhor
me chama um Úbe, por favor?
- Mas a senhora não
ia arrumar a cozinha? Vai aonde a essa hora?
- Vou láaaaaaaaaa
na cozinha... láaaa tão tão distante... dá uma preguiiiiiça…
Mais risos.
A cozinha era
realmente muito distante da sala onde estavam... chega a dar preguiça
– como ela mesma disse -, de buscar um simples copo d'água.
Dona Lourdes sai
andando a passos de cágado, arrastando o pé esquerdo no chão, de
tão “animada” e falando “de si para consigo mesma”:
- Pelamor, Pepita,
como que vou dormir sabendo que a cozinha está daquele tamanho? Ah,
não.. não dou conta! Não sei dormir sem arrumar tudo. - Ela
carregava Pepita no colo.
Chegando na cozinha,
a gata pula de seu colo para a cadeira da mesa e Dona Lourdes resolve
fechar a porta que dá para a sala de jantar pra evitar que o barulho
da pia e da TV incomode. Na verdade ela gosta de arrumar cozinha
cantando, mas àquela hora não teria como. Com a mão esquerda ela
liga a TV com o controle remoto, enquanto fecha a porta com a mão
direita e, despercebidamente, passa a chave na mesma.
Lava aqui, seca
dali, conversa com o apresentador da TV, faz um carinho na Pepita.
Serve um gole de suco de uva. Seca uns pratos… varre o chão
(reclama porque o piso está velho e manchado) e, passados uns 40
minutos, tudo lavadinho e seco, ela resolve voltar para a sala.
- Vem, Pepita..
vem.. pshhh, pshh, pshh... vamos voltar pro sofá, cadiquê minhas
pernas já estão cansadas.
Dona Lourdes pega
Pepita no colo, que taca as unhas no ombro esquerdo de Dona Lourdes,
para se equilibrar.
- Pelamor, Pepita
Maria... tá precisando de uma paticure, minha filha.. muito franca.
Com a outra mão,
equilibra uma xícara de café que acabara de passar, um pacote de
salgadinhos e um de pipoca que fizera pros meninos. Tudo equilibrado,
tenta abrir a porta que.. não abre.
- Jesus, Maria,
José! A porta não abre! Que que houve aqui, senhor.
Dona Lourdes tenta
jogar tudo pra cima do braço esquerdo, por cima de Pepita, que finca
ainda mais as unhas em seu ombro. Dona Lourdes dá um gritinho
abafado de dor. Depois de ajeitar tudo no braço, ela força a
maçaneta, que gira sem abrir.
- Uai.. será
tranquei? Nunca tranco...
Pois ela trancou.. e a chave
quebrou lá dentro!
- Pelamor...
misericórdia... tô roubada... como que vou abrir essa porta!
Ela coloca as coisas
em cima da mesa, Pepita pula pro chão e volta para a cadeira. Chama
pelos meninos, mas “grita baixo” que é pra não incomodar os
vizinhos, pois já era uma da manhã. Procura por seu celular e
descobre que deixou-o carregando no quarto.
- Agora a vaca foi
pro brejo com a corda e tudo! Como que os meninos vão me ouvir,
nessa lonjura que é a sala??
Ela anda até à
pia, bate com os dedos no mármore. Dá meia volta e encosta na
pedra. Coça a cabeça.. pensa.. pensa… anda até a porta, dá umas
batidinhas na madeira (como se alguém fosse ouví-la...). Resolve
gritar pelos meninos:
- Seu Gil!!! SEU
GIIIIIEEEEELLLLL!!! Deve ter cochilado... pelamor… cochila À toa.
SEU ROOOOONEYYYYYY !!! Esse vai me ouvir, não cochila. SEU
ROOOOOOONEEEEYYYYYYYY!!!
Ninguém a ouve...
Pingo vem correndo,
miando - gatos sempre percebem as coisas – e enfia a patinha por
baixo da porta, na tentativa de ajudar.
- Pingo, fofinho..
vai lá chamar os meninos, vai, queridinho...
Pingo continua
enfiando a pata por baixo da porta.. e começa a miar alto e grosso.
- Pingo, Pinguinho:
vai lá chamar o papai, vai, gatinho... ANDA!!!
E num é que ele foi
mesmo?
O gatão chega na
sala miando alto e num tom diferente do normal.
- Que foi, Pingo?
- Ih, esse miado
dele tá estranho, tem alguma coisa acontecendo, Roney.
Ele anda para no
meio da sala, olha para Seu Gil e começa a miar com o olhar fixo.
- Com certeza tem
algo acontecendo... pode apostar! Vamo lá, Pingão, o que tá
acontecendo?
- Deve ser ração,
pra variar... - comenta Roney - esse gato só faz pedir comida!
Os meninos se
levantam e Pingo começa a andar em direção ao corredor, olhando
pra trás e miando. Pingo continua seguindo pelo corredor, miando e
olhando pra trás, como quem diz “anda, vem!”. Ele para diante da
porta da cozinha e tenta enfiar a patinha por baixo dela. Seu Gil
olha para Seu Roney e fala:
- É na cozinha! -
entreolhamo-nos - DONA LOURDES!!!
Ouvimos sua voz
abafada, falando pela greta da porta, fazendo “copinho com as
mãos”:
- Socorro... tô
presa aqui!
- Mas por que a
senhora trancou a porta por dentro?
- Ah, Seu Roney, foi
automático... nunca fecho essa porta, sequer a encosto. Mas, quando
vou na casinha (banheiro), tranco.. aí me distraí e pimba…
tranquei a danada...
- Joga a chave por
baixo, pra ver se conseguimos abrir por fora – orienta Seu Gil.
Ela joga a chave no
chão e Pingo puxa com a patinha.
- Obrigado, Pingão!
Gatinho bom!
Pingo dá um
miadinho para Gil.
- Não abre.. tá
rodando em falso... quebrou o dentinho da chave – explica Roney.
- Jesus, Maria,
José! Como que vou sair daqui agora? A janela da área e do
quartinho tem grade e tela… poxa vida, nem tem como eu fazer igual
no cinema, quando o bombeiro vem e monta aquele colchão inflável e
aí eu me jogo daqui de cima...
- Chaveiro a essa
hora, nem pensar...
- Como não, Seu
Roney? Vou ter que dormir por aqui. Mas, onde? Pelo menos comida não
vai faltar... HAHAHA
- A senhora ri? Vai
dormir onde? Em cima da mesa?
- Pelamor… quem
dorme na mesa é defunto… tou vivinha da silva! Tô aposentada mas
não tô morta…
- Dona Lourdes, a
senhora vai ter que fazer papel de McGuiver (quando fazemos
referência a cinema ou TV, ela sempre fica mais calma, afinal, é
“cinéfora”)!
- Já entendi, Seu
Gil!
De repente, do outro
lado, ouve-se o barulho da batedeira ligada...
- A senhora vai
fazer bolo a essa hora, Dona Lourdes??
- Claro que não,
Seu Gil bocó.. vou é abrir uma passagem na porta... o senhor falou
pra eu ser McGuiver...
- Impossível, Dona
Lourdes! A porta é de madeira maciça e a senhora ficaria até
amanhã... a senhora vai é tirar os pinos das dobradiças. Vai lá
no quartinho e pega o martelo e uma chave de fenda fina.
Roney não se
aguenta de tanto rir.
- Dona Lourdes...
ouça: largue essa batedeira na mesa e busque o que pedi. E pegue
também um vidrinho de óleo de máquina que está ao lado da caixa
de ferramentas.
Ela busca tudo.
- Pronto! E agora,
Seu Gil?
- Pingue o óleo nas
dobradiças. Agora, enfie a chave de fenda por baixo do pino e vá
dando marteladas nela.
- AAAAIII......
- O que foi, Dona
Lourdes? Martelou o dedo???
- Não, Seu Roney...
é o chão!! Olha meu chão! Tá cheio de óleo! Pelamor!!
- Dona Lourdes..
foca na porta! - pede Seu Gil.
Ela começa a dar
batidinhas cadenciadas no pino do meio, e vai contando junto:
- Um, dois, três e
“pá”. Um, dois, três e “pá”. Um, dois, três e “pá”
(no “pá”, ela dava uma batitidinha mais leve, pra descansar).
- Que isso, Dona
Lourdes?
- Mania de quem já
trabalhou com contas, Seu Gil.. tudo que faço repetitivo, conto. Não
tem jeito. É automático já...
Pingo começa a miar
do lado de fora, e Pepita responde do lado de dentro.
Roney olha para Gil
com cara de quem não está dando conta da “cadência” das
batidas e da miação dos gatos e fala, entre os dentes:
- Nesse ritmo ela
vai sair daí amanhã... muito franca!
Gil retribui o
olhar:
- Fala não.. aliás,
já é “amanhã”. Olha a hora...
- Dona Lourdes, por
favor: que tal trocar a cadência das batidas e botar um pouquinho
mais de força?
- E estragar meu
esmalte? De jeito nenhum.. como é que vou me encontrar com as
meninas amanhã pra contar essa minha aventura, com as unhas todas
estragadas? É ruim, heim! Arrasada mas linda!
E foi nessa cadência
de “Um, dois, três e “pá””, que Dona Lourdes tirou os três
pinos... depois de 40 minutos. Já era quase duas horas da madrugada.
- Pronto! Tirei os
três! E agora?
Silêncio do outro
lado.
- Hellooowww? Quéde
vocês?
Ela resolve, então,
olhar pelo buraco da fechadura.
Dona Lourdes demorou
tanto com a cadência das batidas, que Seu Gil adormeceu sentado na esteira e Seu Roney
recostado na mesa de jantar. Pingo estava aninhado no colo de Seu
Gil.
Dona Lourdes soca a porta e dá um berro:
- ACORDEM, SEUS
BOCÓS!!! Eu tô aqui fazendo todo o trabalho braçal e vocês
dormindo?
Pingo acorda num
pulo só e dá um susto em Seu Gil, que acorda.
- A senhora demorou
tanto, que apagamos...
- E agora, manés?
- Vamos empurrar a
porta pra sua direção, pra soltar das dobradiças.
Gil começa a
empurrar, mas a porta nem mexe...
- Estranho... não
quer sair do lugar. Será que emperrou?
- É verdade. Também
estou empurrando daqui, pra ajudar, e ela nem tchum... comenta Dona
Lourdes.
- Dona Lourdes.... a
senhora tá empurrando pro nosso lado?
- Claro, mané.. foi
o que você disse pra fazer...
- Não, Dona
Lourdes.. não é isso... NÓS é que vamos empurrar.
Ela faz seu
tradicional bicão e concorda:
- Ahn… então tá…
perae que vou arredar a mesa.
- Que mesa, Dona
Lourdes? - pergunta Gil
- Ué… tive que
arredar a mesa pra perto da porta pra trepar nela e tirar o pino do
alto.
Roney olha pra Seu
Gil e começa a rir de tanta força que Gil estava fazendo, à toa…
- Dona Lourdes Maria
de Souza… além de empurrar no sentido contrário, a senhora
colocou uma mesa atrás da porta??? TIRA LOGO ISSO DAÍ!!! PELAMOR!
A porta era de
madeira maciça, pesava muito... mas, finalmente, tiraram a porta!
Mal abriram
passagem, Dona Lourdes sai empurrando os dois, gritando:
- Saaaaaai, que tô
louca pra fazer xixi!!! - e sai correndo desesperada corredor a fora.
Os meninos caem na
risada, encostam a porta num canto e voltam pra sala.
Quando estão
passando pelo corredor, Pingo está sentado em frente à porta do
banheiro, avistam Dona Lourdes sentada no troninho... estava de porta
aberta! (mas com o roupão por cima... é bom deixar claro)
- DONA LOURDES!!! O
que é isso?? - perguntam, em uníssono.
- Eu heim… É ruim
de eu fechar porta agora!!! Num sou louca! Lá pelo menos tinha
comida… me passa o papel higiênico, por favor.







Adorei!
ResponderExcluirEssa D.Lourdes é uma aventureira!!!
ResponderExcluirD.Lourdes Aventureira!!! Amei
ResponderExcluirEssa Dona Lurdes Maria de Souza só tem uma !
ResponderExcluirAmei
Essa Dona Lurdes Maria de Souza só tem uma!
ResponderExcluirAmei